O que aprendi com um banheiro no meio das montanhas

Por Maiana Antunes

banheiro pangong lake

Em 2014, tive a oportunidade de conhecer um pouco da Índia e sua cultura fascinante. Praticamente tudo o que se vive por lá é marcante e, entre tantas experiências, a visita ao lago de água salgada mais alto do mundo, nos Himalaias, foi excêntrica.

Depois de andar cinco horas de carro – a maior parte do caminho por uma estreita e perigosa estrada montanhosa – finalmente chegamos ao Pangong Tso, um lugar deslumbrante, cercado por montanhas de gelo que contrastam com o céu azul e a água cristalina do lago, que vai da Índia ao Tibete.

Estávamos em Ladakh, na Índia, a mais de quatro mil metros de altitude e, ao girar 360º para contemplar aquela beleza de lugar, surge na vista um estranho contraste: um banheiro público, sem teto, erguido com alguns ferros velhos e tapumes. Claro, que como a maioria dos banheiros na Índia, o local para as necessidades era um simples buraco no chão. Aquele banheiro, um tanto sinistro, era motivo de piadas até que, depois um pouco de cerveja quente em um dos humildes restaurantes do local, tivemos de usá-lo.

Naquele lugar inóspito, a cinco horas de nossa hospedagem, havia um único banheiro que seria a salvação para as bexigas em desespero. O lago não era uma opção pois, considerado sagrado, ele não permitia banhos – o que descobrimos tarde demais, pois alguns meninos do grupo apostaram entrar naquela água extremamente gelada das montanhas. Seria insalubre urinar ali. E em volta, a planície atrairia o olhar dos turistas e do povo local, o que seria desrespeitoso. Bem, aquele banheiro era única opção. Para entrar, era preciso retirar a chave em um dos restaurantes. Acredite se quiser, o banheiro ficava chaveado. Lá dentro, um chão cheio de pedras, alguns papeis usados nos cantos, um buraco sujo, o sol batendo na cabeça e o vento correndo pelas frestas.

pangong lake

Era a única alternativa, então não havia por que reclamar. Quando saí de lá, aliviada, pensei “que bom que havia aquele banheiro ali”. Então lembrei de quantas vezes reclamamos por não ter mais de uma opção em determinados momentos. Tem que reclame que o trabalho está ruim, mas não procura outro emprego por medo de ser demitido antes de encontrar um novo trabalho. Isso é falta de opção? Possivelmente não. Outros reclamam que a relação em casa está difícil, mas não há escolha porque existe uma dependência financeira do parceiro. Será mesmo falta de opção? Pode até ser, por um momento. Pode ser falta de opção até que se resolva dar um passo em direção a uma nova escolha. Claro que, por diversas vezes, nos vemos encurralados, presos a determinadas situações desagradáveis que parecem não acabar mais. Quantas vezes nossa única opção é um banheiro desconfortável e sujo? Por mais difícil que possa parecer uma circunstância, o sofrimento pode ser reduzido se tivermos em mente pelo menos duas coisas:

A tal da resiliência

Mesmo que tenhamos uma única opção, tirar o melhor proveito dela é exercer a resiliência. Quando paramos de reclamar e de nos taxarmos como vítima, quando aceitamos o que surge e acatamos isso como um aprendizado, mudamos a maneira de olhar as coisas e nos transformamos. Você já se sentiu assim, resiliente? A resiliência é realmente uma qualidade que tem o poder de transformar algo aparentemente ruim em um recomeço libertador. Ela é um antídoto para a falta de opção, para aqueles momentos em que algo parece extremamente difícil de ser modificado e causa muito sofrimento. Não é simplesmente aceitar e sufocar uma insatisfação, mas acatá-la como uma oportunidade para crescer mental e espiritualmente e saber lidar com mais discernimento quando novas situações difíceis surgirem. Nada é somente negativo. O sofrimento surge pelo apego e peso que damos às coisas. É libertador quando compreendemos por que sofremos tanto em determinada situação e como a mudança de perspectiva pode trazer paz.

Um objetivo

Sem foco, as novas possibilidades não aparecem, as opções não têm espaço para surgir. Como podemos receber algo que sequer desejamos? Muita gente espera que uma mudança aconteça, mas não faz qualquer movimento para isso. Quando diz que o universo conspira contra você, saiba que você é o único criador do seu universo, portanto, se você cria a possibilidade de mudança, ela surge. Da mesma maneira, quando reclama que nada de novo acontece e ao mesmo tempo não planeja algo novo, é muito difícil que realmente surja uma mudança. Intenção positiva não tem qualquer efeito sem um objetivo. Para ter algo é preciso saber o que se quer e ir, de fato, em busca de seu objetivo com um pé no chão e caneta na mão. Pensar positivo ajuda, claro, mas é imprescindível listar os caminhos e verificar as possibilidades para encontrar uma segunda opção.

Na impermanência da vida, muitas vezes teremos apenas a escolha de um banheiro sujo, porém se compreendermos que tudo muda o tempo todo, não ficaremos ali por muito tempo.